Cirrose Hepática: Entendendo a Doença, seus Riscos e as Opções Modernas de Tratamento
A cirrose hepática representa o estágio avançado de diversas doenças crônicas do fígado e caracteriza-se por fibrose progressiva, distorsão arquitetural e formação de nódulos regenerativos, levando a um órgão que perde gradualmente sua função.
Em termos simples: o fígado, ao sofrer agressões por muitos anos, tenta se regenerar, mas acaba substituindo parte do tecido saudável por cicatrizes – o que compromete suas múltiplas funções metabólicas, imunológicas e digestivas.
Causas mais frequentes?
Apesar da cirrose ser um desfecho comum a diferentes doenças hepáticas, algumas etiologias predominam:
Esteato-hepatite metabólica (MASLD/NASH/MASH) – associada principalmente à obesidade, diabetes e síndrome metabólica como um todo; atualmente uma das causas mais crescentes no mundo. Primeira causa nos Estados Unidos e, atualmente, se torna a primeira causa também no Brasil
Hepatite viral crônica (HBV e HCV) – progressão silenciosa ao longo de décadas.
Alcoolismo crônico
Doenças autoimunes – hepatite autoimune, colangites (CBP/CEP).
Doenças hereditárias – hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de alfa-1 antitripsina.
Causas secundárias - Lesão da via biliar, cálculos na via biliar levando a obstrução crônica.
A identificação da causa é fundamental, pois modificar o fator agressor pode estabilizar ou até regredir a fibrose em fases iniciais.
Como a cirrose evolui?
A doença costuma permanecer compensada por longos períodos – quando o fígado ainda executa suas funções adequadamente.
Com o tempo, alguns pacientes evoluem para fase descompensada devido algum evento infeccioso por exemplo, marcada por complicações que alteram totalmente o prognóstico:
Ascite - aumento do volume abdominal por líquido
Hemorragia digestiva por varizes esofagogástricas
Encefalopatia hepática - estado confusional devido ao metabolismo limitado da ureia
Icterícia - pele amarelada pelo depósito de bilirrubina
Síndrome hepatorrenal
Na fase descompensada, a expectativa de vida diminui significativamente e deve-se discutir estratégias avançadas de manejo, incluindo transplante hepático.
Risco de câncer de fígado
Pacientes com cirrose – independentemente da causa – apresentam risco aumentado de desenvolver carcinoma hepatocelular (CHC).
Por isso, recomenda-se rastreamento semestral com ultrassom (e, quando necessário, ressonância) associado à dosagem de alfa-fetoproteína.
A detecção precoce muda completamente o tratamento, permitindo cirurgias, ablações ou transplante com intenção curativa.
Diagnóstico
O diagnóstico combina três pilares:
História clínica
Exames de imagem (USG, TC, RM com sinais de hipertensão portal e irregularidade hepática)
Elastografia hepática, que quantifica a rigidez do fígado inferindo o grau de fibrose hepática
A biópsia, embora não seja sempre necessária, pode ser indicada em casos de dúvida etiológica ou de estadiamento.
Manejo moderno da cirrose
O tratamento atual é individualizado, integrando:
1. Controle da causa
Parar consumo de álcool
Tratar hepatites virais
Controle rígido da síndrome metabólica com medicamentos ou cirurgia para obesidade
Terapias imunossupressoras para doenças autoimunes
2. Prevenção de complicações
Betabloqueadores para varizes
Vacinação contra hepatite A/B e outras infecções
Nutrição otimizada, com foco em preservação de massa muscular e controle do sódio
Monitoramento de função renal e eletrolitos
3. Manejo das descompensações
Abordagens específicas para ascite, HDA, encefalopatia e síndrome hepatorrenal, incluindo o uso criterioso de diuréticos, paracenteses terapêuticas, restrição hídrica e terapias dirigidas.
4. Transplante hepático
Indicado quando ocorre falência funcional ou complicações irreversíveis.
O transplante é, hoje, o único tratamento efetivamente curativo na cirrose avançada.
Estilo de vida e acompanhamento
A cirrose não é apenas uma doença hepática, mas uma condição sistêmica que exige cuidado contínuo.
Nutrição, exercício orientado, saúde mental e acompanhamento especializado formam uma combinação essencial.
Intervenções precoces podem mudar o curso da doença.
Mensagem final
A cirrose hepática é séria, mas não precisa ser sinônimo de fatalidade.
Com diagnóstico oportuno, acompanhamento por equipe especializada e estratégias modernas de tratamento, muitos pacientes conseguem manter qualidade de vida, evitar complicações e, em casos selecionados, até reverter parte do dano hepático.
O maior inimigo da cirrose não é a doença em si, mas o diagnóstico tardio. Informação, vigilância e cuidado integrado são as chaves para preservar o bem-estar e prolongar a vida.