Colelitíase: Entenda a Formação dos Cálculos na Vesícula e Quando a Cirurgia é Realmente Necessária?
A colelitíase, popularmente conhecida como “pedra na vesícula”, é uma condição caracterizada pela formação de cálculos no interior da vesícula biliar, órgão responsável por armazenar e concentrar a bile.
Embora seja extremamente comum, a doença pode evoluir de forma silenciosa por anos até gerar crises agudas que impactam qualidade de vida, rotina profissional e, em alguns casos, podem levar a complicações graves.
Por que os cálculos se formam?
Os cálculos surgem quando ocorre desequilíbrio dos componentes da bile, levando à preciptação. Os principais mecanismos incluem:
Supersaturação de colesterol – origem da maioria dos cálculos.
Redução da motilidade da vesícula – favorece estase e precipitação de cristais.
Alterações inflamatórias ou infecções.
Condições metabólicas (obesidade, dislipidemia, resistência insulínica).
Predisposição genética e fatores hormonais (gravidez, uso de estrogênio).
Sintomas e formas de apresentação
A colelitíase pode ser:
1. Assintomática
A maioria dos cálculos é descoberta incidentalmente. Mesmo assim, dependendo do tamanho e características, alguns casos podem evoluir para sintomas devendo ter a sua retirada programada.
2. Sintomática (cólica biliar)
A dor clássica é um desconforto intenso no quadrante superior direito ou epigástrio, muitas vezes irradiando para dorso ou escápula direita. A crise ocorre quando o cálculo impacta o ducto cístico, gerando aumento de pressão dentro da vesícula, normalmente com resolução em até 6 horas.
3. Complicada
Quando há obstrução prolongada ou migração dos cálculos, pode ocorrer:
Colecistite aguda
Coledocolitíase (pedra no ducto biliar principal)
Pancreatite aguda biliar
Colangite
Nessas situações, a abordagem cirúrgica torna-se urgente e o risco aumenta consideravelmente.
Diagnóstico
O diagnóstico é principalmente feito por:
Ultrassonografia abdominal – método de escolha, alta acurácia.
Avaliação laboratorial para detectar sinais de inflamação, obstrução biliar ou complicações sistêmicas
Em casos selecionados, colangio-RM pode ser necessária para avaliar via biliar principal.
A análise clínica é essencial para diferenciar cólica biliar de complicações.
Quando operar?
Embora a colelitíase assintomática não exija cirurgia em todos os pacientes, existem cenários claros em que a colecistectomia é recomendada. Nos demais casos a cirurgia é formalmente indicada.
Indicações formais
Cólica biliar recorrente
Colecistite aguda
Coledocolitíase ou pancreatite aguda biliar
Vesícula em porcelana (risco aumentado de câncer)
Cálculos > 2–3 cm
Pacientes imunossuprimidos
população asiática
Antes de cirurgias bariátricas
Por que operar mesmo quando “não dói sempre”?
O risco de complicações aumenta ao longo do tempo. Em perfis de alta performance – executivos, profissionais liberais, pacientes que não podem interromper a rotina com emergências – a cirurgia eletiva costuma ser a escolha mais estratégica.
Tratamento: a colecistectomia laparoscópica
A colecistectomia laparoscópica é hoje o padrão-ouro no tratamento da colelitíase sintomática.
Oferece:
Recuperação rápida
Baixa taxa de complicações
Retorno precoce às atividades
Menor dor pós-operatória
Cicatrizes discretas
Em casos selecionados, pode-se empregar técnicas avançadas, como cirurgia robótica ou uso de fluorescência (ICG) para maior segurança no plano biliar.
Riscos e complicações
Embora seja um procedimento seguro, realizado rotineiramente em centros de excelência, existem riscos como:
Lesão de via biliar (raro, <0,3%) principalmente quando realizados com profissionais com expertise em via biliar
Hemorragia
Infecções
Fístula biliar
Necessidade de conversão para cirurgia aberta em casos complexos
A experiência do cirurgião, a anatomia individual e o grau de inflamação local influenciam diretamente esses riscos.
E depois da retirada da vesícula?
A maioria dos pacientes não sente falta da vesícula, pois o fígado continua produzindo bile normalmente.
A adaptação é rápida e o impacto digestivo é mínimo, desde que haja orientação nutricional adequada no pós-operatório imediato.
Mensagem final
A colelitíase é comum, mas não deve ser subestimada. Quando tratada de forma planejada e eletiva, proporciona excelente prognóstico e evita emergências que podem comprometer saúde, agenda e qualidade de vida.
O segredo está em diagnóstico precoce, cirurgia no momento adequado e acompanhamento por profissionais experientes em cirurgia hepatobiliopancreática.
Cirrose Hepática: Entendendo a Doença, seus Riscos e as Opções Modernas de Tratamento
A cirrose hepática representa o estágio avançado de diversas doenças crônicas do fígado e caracteriza-se por fibrose progressiva, distorsão arquitetural e formação de nódulos regenerativos, levando a um órgão que perde gradualmente sua função.
Em termos simples: o fígado, ao sofrer agressões por muitos anos, tenta se regenerar, mas acaba substituindo parte do tecido saudável por cicatrizes – o que compromete suas múltiplas funções metabólicas, imunológicas e digestivas.
Causas mais frequentes?
Apesar da cirrose ser um desfecho comum a diferentes doenças hepáticas, algumas etiologias predominam:
Esteato-hepatite metabólica (MASLD/NASH/MASH) – associada principalmente à obesidade, diabetes e síndrome metabólica como um todo; atualmente uma das causas mais crescentes no mundo. Primeira causa nos Estados Unidos e, atualmente, se torna a primeira causa também no Brasil
Hepatite viral crônica (HBV e HCV) – progressão silenciosa ao longo de décadas.
Alcoolismo crônico
Doenças autoimunes – hepatite autoimune, colangites (CBP/CEP).
Doenças hereditárias – hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de alfa-1 antitripsina.
Causas secundárias - Lesão da via biliar, cálculos na via biliar levando a obstrução crônica.
A identificação da causa é fundamental, pois modificar o fator agressor pode estabilizar ou até regredir a fibrose em fases iniciais.
Como a cirrose evolui?
A doença costuma permanecer compensada por longos períodos – quando o fígado ainda executa suas funções adequadamente.
Com o tempo, alguns pacientes evoluem para fase descompensada devido algum evento infeccioso por exemplo, marcada por complicações que alteram totalmente o prognóstico:
Ascite - aumento do volume abdominal por líquido
Hemorragia digestiva por varizes esofagogástricas
Encefalopatia hepática - estado confusional devido ao metabolismo limitado da ureia
Icterícia - pele amarelada pelo depósito de bilirrubina
Síndrome hepatorrenal
Na fase descompensada, a expectativa de vida diminui significativamente e deve-se discutir estratégias avançadas de manejo, incluindo transplante hepático.
Risco de câncer de fígado
Pacientes com cirrose – independentemente da causa – apresentam risco aumentado de desenvolver carcinoma hepatocelular (CHC).
Por isso, recomenda-se rastreamento semestral com ultrassom (e, quando necessário, ressonância) associado à dosagem de alfa-fetoproteína.
A detecção precoce muda completamente o tratamento, permitindo cirurgias, ablações ou transplante com intenção curativa.
Diagnóstico
O diagnóstico combina três pilares:
História clínica
Exames de imagem (USG, TC, RM com sinais de hipertensão portal e irregularidade hepática)
Elastografia hepática, que quantifica a rigidez do fígado inferindo o grau de fibrose hepática
A biópsia, embora não seja sempre necessária, pode ser indicada em casos de dúvida etiológica ou de estadiamento.
Manejo moderno da cirrose
O tratamento atual é individualizado, integrando:
1. Controle da causa
Parar consumo de álcool
Tratar hepatites virais
Controle rígido da síndrome metabólica com medicamentos ou cirurgia para obesidade
Terapias imunossupressoras para doenças autoimunes
2. Prevenção de complicações
Betabloqueadores para varizes
Vacinação contra hepatite A/B e outras infecções
Nutrição otimizada, com foco em preservação de massa muscular e controle do sódio
Monitoramento de função renal e eletrolitos
3. Manejo das descompensações
Abordagens específicas para ascite, HDA, encefalopatia e síndrome hepatorrenal, incluindo o uso criterioso de diuréticos, paracenteses terapêuticas, restrição hídrica e terapias dirigidas.
4. Transplante hepático
Indicado quando ocorre falência funcional ou complicações irreversíveis.
O transplante é, hoje, o único tratamento efetivamente curativo na cirrose avançada.
Estilo de vida e acompanhamento
A cirrose não é apenas uma doença hepática, mas uma condição sistêmica que exige cuidado contínuo.
Nutrição, exercício orientado, saúde mental e acompanhamento especializado formam uma combinação essencial.
Intervenções precoces podem mudar o curso da doença.
Mensagem final
A cirrose hepática é séria, mas não precisa ser sinônimo de fatalidade.
Com diagnóstico oportuno, acompanhamento por equipe especializada e estratégias modernas de tratamento, muitos pacientes conseguem manter qualidade de vida, evitar complicações e, em casos selecionados, até reverter parte do dano hepático.
O maior inimigo da cirrose não é a doença em si, mas o diagnóstico tardio. Informação, vigilância e cuidado integrado são as chaves para preservar o bem-estar e prolongar a vida.
Doenças do esôfago
Tudo começa com uma ideia.
O esôfago é o tubo que conduz o alimento da boca ao estômago. Diversas doenças podem afetar sua função, causando dificuldade para engolir, dor e sintomas digestivos. As principais condições incluem:
1. Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)
O ácido do estômago retorna para o esôfago, causando azia, queimação e regurgitação. Pode levar à esofagite e, em casos crônicos, ao Esôfago de Barrett. Tratamento envolve mudanças de hábitos, medicamentos e, em alguns casos, cirurgia.
2. Distúrbios Motores do Esôfago
Acalasia: o esfíncter esofágico inferior não relaxa, causando engasgos e perda de peso.
Megaesôfago: dilatação decorrente da acalasia, doença de Chagas ou causas neurológicas
O diagnóstico é feito com manometria esofágica, e o tratamento varia conforme o distúrbio.
3. Estenoses Esofágicas
São estreitamentos do esôfago, geralmente provocados por refluxo crônico, ingestão de substâncias corrosivas ou pós-radioterapia. Podem causar engasgos e necessidade de dilatação endoscópica.
4. Câncer de Esôfago
Mais comum em duas formas: carcinoma espinocelular e adenocarcinoma. Os principais sintomas são dificuldade progressiva para engolir, perda de peso e dor torácica. O tratamento inclui cirurgia, quimioterapia e radioterapia.