Matheus Dourado Matheus Dourado

Colelitíase: Entenda a Formação dos Cálculos na Vesícula e Quando a Cirurgia é Realmente Necessária?

A colelitíase, popularmente conhecida como “pedra na vesícula”, é uma condição caracterizada pela formação de cálculos no interior da vesícula biliar, órgão responsável por armazenar e concentrar a bile.
Embora seja extremamente comum, a doença pode evoluir de forma silenciosa por anos até gerar crises agudas que impactam qualidade de vida, rotina profissional e, em alguns casos, podem levar a complicações graves.

Por que os cálculos se formam?

Os cálculos surgem quando ocorre desequilíbrio dos componentes da bile, levando à preciptação. Os principais mecanismos incluem:

  • Supersaturação de colesterol – origem da maioria dos cálculos.

  • Redução da motilidade da vesícula – favorece estase e precipitação de cristais.

  • Alterações inflamatórias ou infecções.

  • Condições metabólicas (obesidade, dislipidemia, resistência insulínica).

  • Predisposição genética e fatores hormonais (gravidez, uso de estrogênio).

Sintomas e formas de apresentação

A colelitíase pode ser:

1. Assintomática

A maioria dos cálculos é descoberta incidentalmente. Mesmo assim, dependendo do tamanho e características, alguns casos podem evoluir para sintomas devendo ter a sua retirada programada.

2. Sintomática (cólica biliar)

A dor clássica é um desconforto intenso no quadrante superior direito ou epigástrio, muitas vezes irradiando para dorso ou escápula direita. A crise ocorre quando o cálculo impacta o ducto cístico, gerando aumento de pressão dentro da vesícula, normalmente com resolução em até 6 horas.

3. Complicada

Quando há obstrução prolongada ou migração dos cálculos, pode ocorrer:

  • Colecistite aguda

  • Coledocolitíase (pedra no ducto biliar principal)

  • Pancreatite aguda biliar

  • Colangite

Nessas situações, a abordagem cirúrgica torna-se urgente e o risco aumenta consideravelmente.

Diagnóstico

O diagnóstico é principalmente feito por:

  • Ultrassonografia abdominal – método de escolha, alta acurácia.

  • Avaliação laboratorial para detectar sinais de inflamação, obstrução biliar ou complicações sistêmicas

  • Em casos selecionados, colangio-RM pode ser necessária para avaliar via biliar principal.

A análise clínica é essencial para diferenciar cólica biliar de complicações.

Quando operar?

Embora a colelitíase assintomática não exija cirurgia em todos os pacientes, existem cenários claros em que a colecistectomia é recomendada. Nos demais casos a cirurgia é formalmente indicada.

Indicações formais

  • Cólica biliar recorrente

  • Colecistite aguda

  • Coledocolitíase ou pancreatite aguda biliar

  • Vesícula em porcelana (risco aumentado de câncer)

  • Cálculos > 2–3 cm

  • Pacientes imunossuprimidos

  • população asiática

  • Antes de cirurgias bariátricas

Por que operar mesmo quando “não dói sempre”?

O risco de complicações aumenta ao longo do tempo. Em perfis de alta performance – executivos, profissionais liberais, pacientes que não podem interromper a rotina com emergências – a cirurgia eletiva costuma ser a escolha mais estratégica.

Tratamento: a colecistectomia laparoscópica

A colecistectomia laparoscópica é hoje o padrão-ouro no tratamento da colelitíase sintomática.
Oferece:

  • Recuperação rápida

  • Baixa taxa de complicações

  • Retorno precoce às atividades

  • Menor dor pós-operatória

  • Cicatrizes discretas

Em casos selecionados, pode-se empregar técnicas avançadas, como cirurgia robótica ou uso de fluorescência (ICG) para maior segurança no plano biliar.

Riscos e complicações

Embora seja um procedimento seguro, realizado rotineiramente em centros de excelência, existem riscos como:

  • Lesão de via biliar (raro, <0,3%) principalmente quando realizados com profissionais com expertise em via biliar

  • Hemorragia

  • Infecções

  • Fístula biliar

  • Necessidade de conversão para cirurgia aberta em casos complexos

A experiência do cirurgião, a anatomia individual e o grau de inflamação local influenciam diretamente esses riscos.

E depois da retirada da vesícula?

A maioria dos pacientes não sente falta da vesícula, pois o fígado continua produzindo bile normalmente.
A adaptação é rápida e o impacto digestivo é mínimo, desde que haja orientação nutricional adequada no pós-operatório imediato.

Mensagem final

A colelitíase é comum, mas não deve ser subestimada. Quando tratada de forma planejada e eletiva, proporciona excelente prognóstico e evita emergências que podem comprometer saúde, agenda e qualidade de vida.

O segredo está em diagnóstico precoce, cirurgia no momento adequado e acompanhamento por profissionais experientes em cirurgia hepatobiliopancreática.

Leia mais
Matheus Dourado Matheus Dourado

Cirrose Hepática: Entendendo a Doença, seus Riscos e as Opções Modernas de Tratamento

A cirrose hepática representa o estágio avançado de diversas doenças crônicas do fígado e caracteriza-se por fibrose progressiva, distorsão arquitetural e formação de nódulos regenerativos, levando a um órgão que perde gradualmente sua função.
Em termos simples: o fígado, ao sofrer agressões por muitos anos, tenta se regenerar, mas acaba substituindo parte do tecido saudável por cicatrizes – o que compromete suas múltiplas funções metabólicas, imunológicas e digestivas.

Causas mais frequentes?

Apesar da cirrose ser um desfecho comum a diferentes doenças hepáticas, algumas etiologias predominam:

  • Esteato-hepatite metabólica (MASLD/NASH/MASH) – associada principalmente à obesidade, diabetes e síndrome metabólica como um todo; atualmente uma das causas mais crescentes no mundo. Primeira causa nos Estados Unidos e, atualmente, se torna a primeira causa também no Brasil

  • Hepatite viral crônica (HBV e HCV) – progressão silenciosa ao longo de décadas.

  • Alcoolismo crônico

  • Doenças autoimunes – hepatite autoimune, colangites (CBP/CEP).

  • Doenças hereditárias – hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de alfa-1 antitripsina.

  • Causas secundárias - Lesão da via biliar, cálculos na via biliar levando a obstrução crônica.

A identificação da causa é fundamental, pois modificar o fator agressor pode estabilizar ou até regredir a fibrose em fases iniciais.

Como a cirrose evolui?

A doença costuma permanecer compensada por longos períodos – quando o fígado ainda executa suas funções adequadamente.
Com o tempo, alguns pacientes evoluem para fase descompensada devido algum evento infeccioso por exemplo, marcada por complicações que alteram totalmente o prognóstico:

  • Ascite - aumento do volume abdominal por líquido

  • Hemorragia digestiva por varizes esofagogástricas

  • Encefalopatia hepática - estado confusional devido ao metabolismo limitado da ureia

  • Icterícia - pele amarelada pelo depósito de bilirrubina

  • Síndrome hepatorrenal

Na fase descompensada, a expectativa de vida diminui significativamente e deve-se discutir estratégias avançadas de manejo, incluindo transplante hepático.

Risco de câncer de fígado

Pacientes com cirrose – independentemente da causa – apresentam risco aumentado de desenvolver carcinoma hepatocelular (CHC).
Por isso, recomenda-se rastreamento semestral com ultrassom (e, quando necessário, ressonância) associado à dosagem de alfa-fetoproteína.

A detecção precoce muda completamente o tratamento, permitindo cirurgias, ablações ou transplante com intenção curativa.

Diagnóstico

O diagnóstico combina três pilares:

  1. História clínica

  2. Exames de imagem (USG, TC, RM com sinais de hipertensão portal e irregularidade hepática)

  3. Elastografia hepática, que quantifica a rigidez do fígado inferindo o grau de fibrose hepática

A biópsia, embora não seja sempre necessária, pode ser indicada em casos de dúvida etiológica ou de estadiamento.

Manejo moderno da cirrose

O tratamento atual é individualizado, integrando:

1. Controle da causa

  • Parar consumo de álcool

  • Tratar hepatites virais

  • Controle rígido da síndrome metabólica com medicamentos ou cirurgia para obesidade

  • Terapias imunossupressoras para doenças autoimunes

2. Prevenção de complicações

  • Betabloqueadores para varizes

  • Vacinação contra hepatite A/B e outras infecções

  • Nutrição otimizada, com foco em preservação de massa muscular e controle do sódio

  • Monitoramento de função renal e eletrolitos

3. Manejo das descompensações

Abordagens específicas para ascite, HDA, encefalopatia e síndrome hepatorrenal, incluindo o uso criterioso de diuréticos, paracenteses terapêuticas, restrição hídrica e terapias dirigidas.

4. Transplante hepático

Indicado quando ocorre falência funcional ou complicações irreversíveis.
O transplante é, hoje, o único tratamento efetivamente curativo na cirrose avançada.

Estilo de vida e acompanhamento

  • A cirrose não é apenas uma doença hepática, mas uma condição sistêmica que exige cuidado contínuo.

  • Nutrição, exercício orientado, saúde mental e acompanhamento especializado formam uma combinação essencial.

  • Intervenções precoces podem mudar o curso da doença.

Mensagem final

A cirrose hepática é séria, mas não precisa ser sinônimo de fatalidade.
Com diagnóstico oportuno, acompanhamento por equipe especializada e estratégias modernas de tratamento, muitos pacientes conseguem manter qualidade de vida, evitar complicações e, em casos selecionados, até reverter parte do dano hepático.

O maior inimigo da cirrose não é a doença em si, mas o diagnóstico tardio. Informação, vigilância e cuidado integrado são as chaves para preservar o bem-estar e prolongar a vida.

Leia mais
Matheus Dourado Matheus Dourado

Doenças do esôfago

Tudo começa com uma ideia.

O esôfago é o tubo que conduz o alimento da boca ao estômago. Diversas doenças podem afetar sua função, causando dificuldade para engolir, dor e sintomas digestivos. As principais condições incluem:

1. Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)

O ácido do estômago retorna para o esôfago, causando azia, queimação e regurgitação. Pode levar à esofagite e, em casos crônicos, ao Esôfago de Barrett. Tratamento envolve mudanças de hábitos, medicamentos e, em alguns casos, cirurgia.

2. Distúrbios Motores do Esôfago

  • Acalasia: o esfíncter esofágico inferior não relaxa, causando engasgos e perda de peso.

  • Megaesôfago: dilatação decorrente da acalasia, doença de Chagas ou causas neurológicas

O diagnóstico é feito com manometria esofágica, e o tratamento varia conforme o distúrbio.

3. Estenoses Esofágicas

São estreitamentos do esôfago, geralmente provocados por refluxo crônico, ingestão de substâncias corrosivas ou pós-radioterapia. Podem causar engasgos e necessidade de dilatação endoscópica.

4. Câncer de Esôfago

Mais comum em duas formas: carcinoma espinocelular e adenocarcinoma. Os principais sintomas são dificuldade progressiva para engolir, perda de peso e dor torácica. O tratamento inclui cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

Leia mais